top of page
Buscar

Dor na lateral do quadril: pode ser tendinopatia glútea?

  • 24 de ago.
  • 6 min de leitura

A dor na lateral do quadril é uma queixa frequente no consultório. Muitas vezes, ela começa discretamente: um incômodo ao caminhar, subir uma escada ou dormir sobre determinado lado.


Com o tempo, porém, tarefas simples podem se tornar desconfortáveis e a dor passa a interferir no sono, na atividade física e na rotina.


Uma das possíveis causas é a tendinopatia glútea, condição que envolve principalmente os tendões dos músculos glúteo médio e glúteo mínimo.


Ela é particularmente frequente entre mulheres, sobretudo na meia-idade, embora também possa ocorrer em pessoas mais jovens, fisicamente ativas, e em outros grupos.


O ponto mais importante é não presumir a causa apenas pela localização da dor. Existem diferentes problemas capazes de provocar sintomas semelhantes, e o tratamento depende de identificar corretamente a origem.


Mulher com dor na lateral do quadril, região frequentemente afetada pela tendinopatia dos glúteos médio e mínimo.

O que é tendinopatia glútea?

Os músculos glúteo médio e glúteo mínimo têm funções importantes na movimentação e estabilização do quadril e da pelve.

Seus tendões se inserem na região do grande trocânter, uma proeminência óssea localizada na parte lateral do fêmur.

Quando esses tendões desenvolvem alterações associadas à sobrecarga e à redução de sua capacidade de tolerar determinadas demandas, podem surgir dor e limitação funcional.

A tendinopatia glútea faz parte do espectro da chamada síndrome dolorosa do grande trocânter, uma das causas mais reconhecidas de dor lateral no quadril.


Tendinopatia glútea é a mesma coisa que bursite?

Não necessariamente.

Durante muito tempo, uma parcela significativa das dores na lateral do quadril foi chamada genericamente de bursite trocantérica.

Hoje sabemos que o quadro pode envolver diferentes estruturas e que alterações nos tendões dos glúteos médio e mínimo têm papel importante em muitos pacientes.

Bursa e tendões também podem estar comprometidos simultaneamente.

Por isso, chamar qualquer dor nessa região de “bursite” antes de uma avaliação pode simplificar demais o problema.


Quais são os sintomas da tendinopatia glútea?

A característica mais típica é a dor localizada na região lateral do quadril, próxima ao grande trocânter.

Ela pode aparecer ou piorar em situações como:

  • caminhar por períodos prolongados;

  • subir e descer escadas;

  • correr ou praticar determinados exercícios;

  • ficar muito tempo em algumas posições;

  • deitar sobre o lado dolorido;

  • realizar atividades que aumentam a demanda sobre os músculos do quadril.

A dor noturna merece atenção especial porque pode prejudicar o sono e, consequentemente, afetar a qualidade de vida.

Alguns pacientes também percebem redução da tolerância às atividades que antes realizavam normalmente.


Por que a tendinopatia glútea é mais comum em mulheres?

A associação com o sexo feminino é bem documentada.

No importante ensaio clínico LEAP, por exemplo, que avaliou 204 pessoas entre 35 e 70 anos com tendinopatia glútea confirmada, 167 participantes eram mulheres — aproximadamente 82% da amostra.

Isso não significa, porém, que exista uma única explicação para a maior ocorrência entre mulheres.

Características anatômicas, biomecânicas, hormonais, composição corporal e capacidade dos tendões de responder às cargas são alguns dos fatores investigados.

O mais importante clinicamente é entender que uma mulher com dor lateral persistente no quadril não deve simplesmente considerar esse sintoma consequência inevitável da idade ou da rotina.


Pessoas jovens e ativas também podem apresentar o problema?

Sim.

Embora exista uma associação importante com mulheres de meia-idade, tendinopatias também estão relacionadas à maneira como o tecido responde às cargas impostas sobre ele.

Um aumento rápido no volume ou intensidade dos exercícios, por exemplo, pode ultrapassar temporariamente a capacidade de adaptação do tendão.

No outro extremo, uma pessoa sedentária também pode apresentar menor capacidade para tolerar determinadas demandas quando passa a realizar atividades às quais não estava adaptada.

Por isso, não existe apenas um perfil de paciente com tendinopatia glútea.

O contexto precisa ser avaliado individualmente.


Dor ao dormir de lado pode ser tendinopatia glútea?

Pode.

Esse é um relato bastante característico.

Ao deitar diretamente sobre o quadril doloroso, ocorre compressão das estruturas localizadas na região lateral da articulação. Em um tendão sensibilizado, essa posição pode aumentar os sintomas.

Mas dor ao deitar de lado, isoladamente, não confirma o diagnóstico.

O conjunto da história clínica e do exame físico é que permite estabelecer a principal hipótese e determinar se exames complementares são necessários.


Nem toda dor lateral no quadril vem dos tendões

Esse é provavelmente o ponto mais importante do diagnóstico.

Uma pessoa pode apontar para a lateral do quadril e ter uma origem diferente para a dor.

Problemas na própria articulação do quadril, alterações da coluna lombar e outras condições musculoesqueléticas podem produzir sintomas nessa região.

É justamente por isso que procurar apenas um tratamento para “inflamação” sem estabelecer o diagnóstico pode resultar em melhora temporária ou ausência de resposta.

O primeiro tratamento da dor no quadril é entender de onde ela vem.


Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico começa com uma história clínica detalhada.

É importante entender quando a dor começou, onde exatamente ela aparece, quais atividades pioram os sintomas e de que maneira está interferindo na rotina.

Depois, o exame físico permite avaliar fatores como sensibilidade local, força, mobilidade e resposta a testes específicos.

Em muitos casos, o diagnóstico é predominantemente clínico.

Quando existe dúvida, necessidade de avaliar a integridade dos tendões ou investigar outros diagnósticos, exames como ultrassonografia e ressonância magnética podem ser utilizados.


Qual é o tratamento da tendinopatia glútea?

O tratamento deve ser individualizado conforme os sintomas, o tempo de evolução, a capacidade funcional e as características da lesão.

Mas existe um ponto importante: repouso absoluto não costuma ser a estratégia central para recuperar a capacidade de um tendão.

Uma das abordagens com melhor sustentação científica combina educação sobre manejo das cargas com exercícios progressivos.

No estudo LEAP, 204 pacientes com tendinopatia glútea foram divididos entre educação associada a exercícios, infiltração com corticosteroide e uma estratégia de observação.

Após oito semanas, educação + exercícios apresentou melhores resultados globais e menor dor do que a estratégia de observação e melhor resultado global do que a infiltração. Em 52 semanas, o grupo de educação + exercícios continuou apresentando melhor percepção global de melhora do que os outros grupos.

Isso não significa simplesmente “fazer exercícios para o glúteo”.

A carga precisa ser planejada e progressiva.


Fortalecimento é importante, mas precisa ser bem dosado

Um tendão precisa de carga para recuperar sua capacidade.

Carga excessiva pode irritá-lo. Carga insuficiente pode não fornecer estímulo suficiente para adaptação.

É justamente esse equilíbrio que torna a reabilitação individualizada importante.

O tratamento pode incluir exercícios específicos para a musculatura do quadril, progressão das atividades e orientações para reduzir temporariamente situações que aumentam excessivamente a compressão ou a demanda sobre os tendões.

Um estudo mais recente, publicado em 2026, continua investigando versões desse modelo de educação, fortalecimento dos abdutores do quadril e progressão funcional.


E infiltrações, ondas de choque ou PRP?

Existem outras possibilidades terapêuticas, mas elas não possuem exatamente o mesmo nível de evidência nem são necessárias para todos os pacientes.

Infiltrações com corticosteroides podem proporcionar alívio no curto prazo em alguns casos, porém os resultados em longo prazo precisam ser considerados dentro da estratégia completa de tratamento.

A terapia por ondas de choque também vem sendo estudada e apresenta resultados promissores em pacientes selecionados.

Quanto ao PRP (Plasma Rico em Plaquetas), há estudos sobre seu uso na tendinopatia glútea, mas revisões recentes ainda classificam as evidências como inconclusivas para recomendá-lo rotineiramente como tratamento padrão.

Isso reforça uma ideia importante: oferecer mais procedimentos não significa necessariamente oferecer um tratamento melhor.


Cirurgia é necessária?

Na maioria dos pacientes, o tratamento começa de maneira não cirúrgica.

A cirurgia fica reservada para situações selecionadas, como determinadas lesões tendíneas relevantes ou quadros persistentes que não responderam adequadamente ao tratamento conservador.

Mais uma vez, a decisão depende do diagnóstico e da extensão da lesão, não apenas da intensidade da dor.


Dor no quadril não deve ser normalizada

Conviver durante meses com dor ao caminhar, subir escadas ou dormir não deve ser considerado normal.

Ao mesmo tempo, ter dor na lateral do quadril não significa automaticamente que exista uma lesão grave ou que seja necessário interromper definitivamente as atividades físicas.

Na tendinopatia glútea, compreender a origem dos sintomas, ajustar as cargas e recuperar progressivamente a capacidade do tendão são partes importantes do tratamento.

O objetivo não é apenas fazer a dor desaparecer.

É recuperar função, confiança no movimento e capacidade para realizar as atividades que fazem parte da rotina.


Se a dor lateral no quadril é persistente ou está começando a limitar suas atividades, procure avaliação de um ortopedista.




 
 
 

Comentários


Logo do Dr Luis Lucena, São Paulo

Movimento é vida

© 2025 Dr. Luis Lucena | Todos os direitos reservados | CRM 109015 | RQE 86553

bottom of page